Abrimos uma exceção aos vídeos e entrevistas para uma mensagem sobre esperança. A autora desse texto tão especial, Luciane Slomka, reúne uma porção de predicados: psicóloga especializada em oncologia, poetisa, modelo, blogueira (http://creioparaver.blogspot.com/) e pesquisadora de um grande projeto pessoal: ser mãe. A ela, coube escrever sobre amor, aprendizados e renovação, no maior estilo Maternidade Real.

Eis que me foi dada a honra de preparar para o Mamatraca um texto sobre o final do ano, sobre esse momento de renovação, esperança e a eterna expectativa de mudanças que todos temos para mais esses 12 meses que se iniciam a partir do dia 01 de Janeiro de 2012.
O dia 1. O marco zero. O que escrever sobre isso que já não tenha sido escrito, falado e pensado? A verdade é que vivemos a base de clichês e rituais que nos formam e nos dão humanidade, e precisamos cada vez mais buscar nossa humanidade mais primária para viver em um mundo tão agitado e competitivo.
Talvez o ano novo seja como a maternidade da qual as mamatracas tanto falam. Uma coisa maravilhosa, um momento lindo e cheio de oportunidades e aprendizados. Mas, acima de tudo, um momento real e que, por ser assim real, traz consigo também temores, desafios, covardias e pequenezas. Parece que no final do ano precisamos ter resoluções prontas, planejamentos delineados, fazer a famosa retrospectiva do ano que passou, assim como na maternidade espera-se que as mães tenham aquele brilho mágico no olhar, aquele ar praticamente divinal de alguém que agora (sim, só agora) está plena, certa e inteira, e que já é um alguém que passa a saber tudo e que a partir do nascimento vai estar reprogramada com um software sobre leitura de cada choro, entendimento de toda cólica, troca de fraldas com maestria e agilidade. Eu não sei que plenitude é essa e acho que esse espaço aqui, ao longo de toda sua existência, surgiu justamente para nos aliviar dessa cobrança pela obrigatoriedade de transmitir a plenitude e de fazermos tudo “certo”.
Mas por favor, esse aqui não é um texto escrito por uma pessimista, muito pelo contrário. Sou tão otimista que consigo permitir todos os espaços de tristeza, medos e dúvidas que um novo ano me suscita, assim como a maternidade me suscitará, sem com isso perder a inocência e o entusiasmo necessários tanto frente à maternidade quanto ao futuro. Sim, eu ainda não sou mãe e mesmo do alto dos meus 33 anos, entusiasmada para conhecer minha barriga e minha identidade como mãe, carrego em mim todos os ideais, todas as fantasias e sonhos que uma ainda-não-mãe precisa ter, mesmo sabendo que depois, tudo isso ganhará um novo panorama ao ver a carinha real do ser que tanto sonho em gerar.
Enquanto estivermos vivos, sempre perceberemos o final de cada ano como um ciclo que se encerra, porque precisamos de ciclos para viver, caso contrário perceber a vida como uma linha incessante e somente interrompida pela morte, seria cansativo e duro demais.
Eu defendo que todas as pessoas, dentro de suas crenças pessoais e religiões, acreditem nesse momento onde magicamente todos ficam generosos, onde todos querem ajudar ao próximo, onde todos querem novos sonhos, que é o momento do Natal e do Ano Novo. Acho que nesses momentos nos permitimos voltar a acreditar no potencial do ser humano, assim como eu sinto que não há momento mais humano e mais esperançoso do que quando um casal decide trazer um filho ao mundo, mesmo contra todas as probabilidades e previsões pessimistas do caos.
Ser mãe é acreditar no futuro; celebrar um fim de ano com esperanças e sonhos também. Quanto mais maduros nos tornamos, mais percebemos que o futuro vem sendo construído nos agoras e nos durantes. Mas toda maturidade também precisa de sonhos; toda vida precisa de continuidade. Queremos todos ser infinitos e os filhos nos trazem essa ideia de continuidade, de legado. Que possamos, então, deixar aos nossos filhos o legado da ingenuidade, do sonho e da esperança que todo dezembro nos traz. E assim, de dezembro em dezembro, vamos tecendo nossa vida, alimentando filhos e sonhos e construindo, sim, um futuro.