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Mamatraca

Palmada

Sexta Feira, 22 Mar. 2013

"INFELIZMENTE, APENAS AS CRIANÇAS AINDA APANHAM COM O CONSENTIMENTO SOCIAL. NÃO É ESTRANHO ISSO?"

O psicólogo João David Mendonça atua na área de terapia de família, é professor e supervisor clínico do Instituto Sistêmico em Florianópolis/SC. Também - e não menos importante - é pai do Felipe, de 4 anos, e do Henrique, que nasce em julho! Escreve sobre psicologia, terapia e coisas da vida no blog Psicojd.

 

Nessa entrevista ele nos ajuda, com muita lucidez, a entender sobre algumas questões ligadas à violência doméstica, principalmente a que atinge as crianças. 

 

Frase de João David Mendonça usada em um meme da fanpage do movimento Bater em Criança é Covardia (www.facebook.com/SemPalmadas)

 

 

 

 

Sabemos que alguns dos pais que dão palmadas em seus filhos nunca questionaram o porquê desse comportamento. Porém alguns deles, quando se deparam com informações e campanhas contra a violência doméstica, assumem uma posição agressiva, direcionando comentários raivosos à problemática. Por que isso acontece?

 

Talvez porque seja um tema que os remete às suas próprias experiências emocionais da infância. Muitos dos que são pais hoje apanharam quando crianças. Para muitos desses pais, pensar na possibilidade de educar os filhos de maneira diferente (e até melhor) pode soar como um desrespeito ou como uma deslealdade aos próprios pais.

 

Entre as pessoas que batem nos filhos há um discurso muito comum: agradecem pelas palmadas que levaram de seus pais, e colocam nelas a responsabilidade por serem pessoas de bem.

 

Na terapia de família trabalhamos com um conceito de “lealdades invisíveis”, desenvolvido pelo psiquiatra húngaro Ivan Borzomenyi Nagy. Tais lealdades são vistas como forças secundárias que regulam nossos comportamentos e nossos pensamentos, como se fossem compromissos invisíveis internalizados a partir da fantasia de que agir ou pensar diferente poderia colocar em risco a manutenção da relação ou da imagem de seus pais ou cuidadores. Assim, é tão importante, para muitas destas pessoas, que as palmadas sejam consideradas como “boas lembranças” e até mesmo repetidas em seus próprios filhos. Propor um caminho de educação que saia desta padrão pode ser uma ameaça, e por isso tal idéia é muitas vezes rechaçada com forte reatividade.

 

 

É comum ainda ouvir argumentos como "Eu apanhei quando era criança e não me tornei uma pessoa violenta". Que outros tipos de desculpas os agressores utilizam para justificar surras?

 

Acho que são mais que “desculpas”, são crenças fortemente enraizadas que sustentam o danoso hábito da punição física. Dentre estas crenças, dou alguns exemplos:

. Bato para o seu próprio bem, porque amo meu filho e quero o melhor para ele;

. Bato para mostrar a minha autoridade;

. Bato porque a palmada é um meio de impor limites na criança;

. Bato porque uma criança precisa ser castigada e corrigida de seu erro para não sofrer mais tarde;

. Bato para disciplinar a criança e ensiná-la sobre o que é certo e o que é errado.

. Bato para ser obedecido.

. Bato porque a criança não tem capacidade para entender uma conversa.

 

O desafio de nossa geração é compreender que todos estes objetivos citados poderiam ser alcançados por outros caminhos que não o da violência física. É interessante constatar que nossa sociedade já conseguiu proibir os escravos de apanhar, já criou leis rigorosas para defender as mulheres, já não bate mais nos seus "loucos", já criou instituições de defesas dos índios, já considera crime a tortura de prisioneiros, já luta contra o mau trato aos animais. Infelizmente, apenas as crianças ainda apanham com o consentimento social. Não é estranho isso?

 

 

 

A criança que apanha (mesmo que de leve) apresenta comportamento diferente daquela que nunca levou um tapa sequer?

 

Vale lembrar que não existe criança perfeita, que obedece o tempo todo, que não chora nem faz birras, que não tem suas próprias opiniões, que não buscam testar os seus pais. Ou seja, criança é criança e ponto final.

 

Porém, uma criança que apanha tende a ser mais agressiva no trato com seus iguais, pode desenvolver o hábito de morder os outros, apela mais facilmente para brigas como meio de conseguir o que quer, utiliza tapas nas suas relações com outras crianças, tende a reproduzir atitudes de agressão batendo nos irmãos.

 

Tais comportamentos podem aparecer em maior ou menor grau, dependendo de outros fatores como a frequencia com que a criança apanha, seu temperamento e personalidade, se há outras pessoas que servem como referências positivas, etc.

 

Além destes comportamentos, podemos pensar em muitas outras consequências que podem se manifestar, como baixa auto-estima, vergonha, raiva, sensação de impotência, sentimento de rejeição, medo, confusão, etc.

 

É um equívoco muito comum acreditar que criança que não apanha vai apresentar problemas mais tarde. É exatamente o contrário: crianças que costumam ser “corrigidas” ou “ensinadas” à base de força bruta estão mais vulneráveis a adotar comportamentos transgressores e agressivos do que outras que são criadas num cultura de não agressividade.

 

 

 

Você diz que "a palmada, ao contrário de afirmação de autoridade, é consequência da sua ausência." Qual a melhor maneira de demonstrar autoridade sem ameaçar a integridade da criança?

 

Diferentemente de como alguns comumente pensam, a autoridade parental não está presente num ato isolado, como a palmada por exemplo. A autoridade genuína encontra-se no modo como a relação pais/filhos está baseada. Alguns pais acreditam que bater é uma maneira de demonstrar autoridade. Eu tenho insistido que não, que bater é, ao contrário, o sinal de que o pai não sabe mais o que fazer, perdeu a capacidade de raciocinar e de estabelecer-se como autoridade na vida de uma criança.

 

É claro que toda criança vai confrontar seus pais, vai desobedecer, vai fazer birras. A diferença está na maneira como os pais vão responder a este confronto. Se respondem com tapas ou palmadas, perdem a oportunidade de mostrar quem é o adulto da situação, e quem é ali a autoridade para enfrentar a adversidade.

 

Creio que algumas maneiras mais autênticas pelas quais os pais podem mostrar sua autoridade são:

. Autoridade pela presença. Estar presente e interessado na vida do filho é um modelo de autoridade;

. Autoridade pelo exemplo. Se o pai responde com um ato violento, o exemplo que ele dá é o da violência, mesmo que ele diga que “dói mais nele que no filho”. Crianças seguem modelos, não discursos;

. Autoridade pela firmeza. Quando um pai fala ou repreende com assertividade, passa segurança ao filho;

. Autoridade pela relação de afeto. A criança sente-se muito mais envolvida com o adulto quando ela sente-se respeitada por ele na sua identidade, o que possibilita a ampliação do afeto mútuo.

 

Tais manifestações de autoridade não agridem nem ameaçam a criança, e contribuem para fortalecer seu nível de confiança em seus cuidadores.

 

 

 

"Eu bati no meu filho, mas me arrependi e não quero fazer de novo." Como trabalhar essa questão com os pais e com os filhos?

 

Acho ótimo terminar a entrevista com esta visão positiva, que há muitos pais que desejam um novo tipo de relacionamento com seus filhos. Neste caso considero importante, em primeiro lugar, trabalhar com a idéia do reconhecimento de nossas imperfeições. A paternidade / maternidade é um aprendizado constante. Quando estamos aqui falando a respeito dos riscos de uma educação baseada em palmadas, não queremos que os pais se sintam incompetentes, culpados ou confusos. Não há uma pílula mágica capaz transformar todos nós em pais perfeitos, infalíveis e sem máculas. Temos então que nos permitir errar, pois nem sempre estamos prontos para acertar.

 

Porém, creio que um segundo passo é importante neste processo: dar-nos conta de que possuímos uma incrível capacidade para mudar e nos transformar. Sem dúvidas, o caminho da educação sem tapas e palmadas é bem mais difícil. Exige dos pais muito mais tempo, paciência, sabedoria, auto-controle, e especialmente o exercício de seus próprios limites para não “perder as estribeiras”. Afinal, como um pai pode ensinar limites a um filho, se ele mesmo não consegue controlar os seus próprios limites em um momento de contrariedade?

 

A educação pela paz é muito mais que uma regra de conduta; é uma postura. Se é uma postura, quando nos conduzimos de maneira equivocada, podemos percebê-la e imediatamente retomar o rumo. Se num lampejo de imperfeição, comum a todos nós pais, e dominados pela irritação ou fúria, apelamos no passado para algum tipo de punição física, é possível restabelecer a consciência de que este não é o modo preferível de nos relacionarmos com nossos filhos.

 

Aos que percebem o erro, resta-lhes o desafio de levantar a cabeça e continuar lutando para manter a postura de não violência, especialmente porque o que eles mais desejam é o bem de seus filhos.

 
Consciência

Quarta Feira, 12 Set. 2012

LAURA GUTMAN NO BRASIL - O SEMINÁRIO

O Poder do Discurso Materno - era o nome desse seminário.

Difícil traduzir em palavras a presença de uma pequena mulher, que com grande sabedoria conduziu uma imensa platéia a refletir.

Não foi uma reflexão binária, daquelas que nos trás conclusões simples. Foi como tirar a tampa de um profundo poço e dele começar a a resgatar aquelas que fomos como filhas (e filhos, acreditem, havia muitos homens no encontro), para poder compreender aquelas que somos como mães.

Laura parte do raciocínio factível: a sociedade patriarcal em que somos inseridos carrega consigo todos os valores de orientação masculina, que por sua vez nos impedem de exercermos nossos potenciais plenamente. Somos homens e mulheres ceifados desde muito jovens. Podados em nossos desejos primários, e em especial no caso das mulheres, com pouco espaço para vivenciar nossa feminilidade, sexualidade e maternidade.

A jornada pelas reflexões de Laura Gutman rendeu gargalhadas e lágrimas na platéia. Pessoas dispostas a conhecerem mais sobre si mesmos, para exercerem o direito (e o dever) de serem justos com seus filhos.

Assista um resumo do evento e compartilhe conosco sua opinião.

Se você foi ao seminário, o que aprendeu de mais valioso?

Se não foi, o que achou dessa abordagem sobre a consciência materna?

Laura Gutman veio ao Brasil por iniciativa dos blogs Cientista que Virou Mãe e Mammys Co.

Veja por lá mais informações sobre o tema.

 

Consciência

Terça Feira, 11 Set. 2012

A HISTÓRIA DE PEDRO E LUCAS

Mas, o que Pedro e Lucas tem à ver com Consciência?

Veja essa historinha e reflita conosco sobre um tema importante: você rotula seus filhos?

Compartilhe sua história nos comentários, hoje é dia de Mamatraca Quer Saber!

Lendas e Fantasias

Quarta Feira, 15 Ago. 2012

"TODA MÃE TEM SEU LADO BRUXA"

 

 

As histórias infantis são repletas de órfãos, madrastas más, vinganças e tragédias e são sucesso entre as crianças há gerações. Não deveria ser ao contrário? Não deveríamos nos afastar das histórias tristes?
 

As historias infantis são um modo de compartilhar experiência, uma estratégia simbólica de  de transmissão de saberes. Elas abordam de um modo fantástico os medos de todo humano. As crianças tem medo de perder seus pais, ao invés de falar isto diretamente, a história coloca como uma criança órfã consegue superar dificuldades. Vamos pensar por que é tão forte a presença das madrastas más? Porque é mais suportável a idéia de uma madrasta má do que de uma mãe má. Para uma criança pode ser muito assustado depender tanto de alguém e estar submetido às exigências do outro. Nas histórias da bruxa má ou das madrastas o que está em questão é a submissão da criança à função materna. Toda mãe tem seu lado bruxa. No entanto, para aliviar a carga psíquica, nas histórias infantis existe a possibilidade de superação. Esta estrutura que se repete nas historias infantis, onde o mau sempre perde, acaba tranqüilizando a criança em relação às maldades alheias e a suas próprias maldades. É por isto que as crianças vêem muitas vezes os mesmos filmes ou pedem para que a história seja recontada. Trata-se de uma garantia de controle. Sao ações simbólicas tentando dar conta do inesperado humano. 

 

Qual é a importância dos contos e lendas para o desenvolvimento emocional das crianças?

 

É de suma importância a oferta de histórias infantis, porque a criança vive aquele momento em uma situação de “como se”, ou seja, como se fosse determinado personagem, como se vivesse aquela situação. Então, na experiência ilusória do “como se”, a criança experimenta outras posições. Por mais assustadora que seja uma história infantil, trata-se de uma área protegida de experimentação. Esta proteção proporciona um espaço transicional interessante ao desenvolvimento infantil.

 

Um conto infantil pode ajudar a superar medos e dificuldades? E pode gerar ansiedades e fobias?

 

Nao é o conto em si que auxilia a superar medos e sim a narrativa compartilhada de uma experiência. A criança se coloca em uma posição ilusória de vivência. Com o conto infantil, a criança escuta sobre o desenrolar de uma situação em geral ansiogênica ou angustiante. Isto abre espaço para que ela possa elaborar sobre amores, medos, fantasias. É claro que as crianças podem se mostrar ansiosas depois de um filme ou de uma história, mas é preciso entender que o objeto da cultura em questão só é o caminho para que a ansiedade da criança se faça perceber. 

 

Os contos e as lendas são poderosos transmissores da cultura de determinado país, região e época. É justo afirmar que os contos e lendas nacionais são "mais interessantes" para serem apresentados às crianças do que os contos importados de outras culturas?

 

Penso que devemos priorizar boas historias sejam elas nacionais ou estrangeiras. O que ocorre é que como a mídia de massa prioriza historias estrangeiras, é interessante estarmos atentos para incluir no dia a dia das crianças as lendas e contos locais. Isto possibilita uma ampliação do capital cultural. 

 

O que você acha dessa corrente politicamente correta que vai abrandando as histórias e as músicas para que tudo seja apresentado para a criança de uma maneira asséptica e sem coisas feias ou erradas?

 

Particularmente não me agrada a idéia. Se retirarmos a possibilidade de lidarmos com as fantasias do humano dos produtos culturais, dificultamos a abertura de espaço para a elaboração. Estes produtos foram criados para dar espaço à fantasia. É melhor cantar de atirar o pau no gato do que precisar atirar o pau no gato. Trata-se de uma sublimação necessária. Não é porque uma criança brinca de polícia e ladrão, que ela ocupará esta posição na adultez. Isto também serve para os jogos eletrônicos tão costumeiramente acusados de incitadores de violência. Não é o game em si que causa violência e sim a ausência de um interlocutor capaz de problematizar o que ali ocorre.

Tecnologia

Quarta Feira, 2 Mai. 2012

TECNOLOGIA QUE NÃO AJUDA - OS IMPACTOS NA PRIMEIRA INFANCIA

Televisão, video games e computadores. Faz mal para meu filho ficar exposto a estes equipamentos na primeira infância? Fabiana Pereira é mãe de três meninas e doll maker dos lindos brinquedos e bonecas Fabiluli, e hoje está mamatracando sobre sua experiência - como mãe e como pesquisadora do tema - com a tecnologia na primeira infância.