
Hoje trazemos uma entrevista especial com a Simone Pinheiro Cotrim Rebouças, professora do CAD (Centro de Aprendizado Esportivo) do Esporte Clube Pinheiros, que tem um trabalho de introduzir, de forma lúdica, o esporte para crianças. Formada em educação física com pós-graduação em iniciação esportiva na infância e adolescência, Simone é uma das professoras mais queridas pela criançada do Pinheiros. Quem a vê trabalhando descobre imediatamente o motivo: ela tem uma paixão imensa pelo que faz.
A partir de que idade a competição é saudável para crianças? Que tipo de consequências negativas na formação da criança uma iniciação precoce à competição pode causar?
Em primeiro lugar nosso dever é fazer com a criança saiba o valor que tem o brincar, e é o que não está acontecendo mais hoje em dia. A competição será introduzida através das brincadeiras e dos jogos, pois assim ela criará maturidade para saber lidar com as vitórias e frustrações. Nas nossas aulas temos crianças que não sabem lidar com a derrota. Em todas as atividades, temos que lembrá-las que essas são as regras que foram estabelecidas e devemos respeitá-las e que o perder faz parte da regra. Pois, se evidenciarmos esse negativismo da derrota que a criança tem, ela será uma criança muito frustrada sempre que perder algo ou não der certo algo que tenha planejado.
Se olharmos o lado competitivo onde há esportes em que se começa cedo, sabemos que ela perderá um pouco da ludicidade do brincar, dos momentos de lazer, afinal torna-se uma obrigação a cumprir. Mas será positivo enquanto a criança tiver prazer do que ela está fazendo. Caso contrário, ela carregará um lado frustrante do esporte.
De que forma essa competição pode ser saudável?
A competição pode ser aplicada a partir dos 5 anos de idade por meio dos jogos e brincadeiras, quando a criança começa entender e assimilar com mais facilidade as regras e a própria competição. O mundo é competitivo e devemos saber lidar com regras, vitórias e derrotas sempre.
Mas hoje vimos muitos exageros de pais colocarem crianças para fazer várias atividades esportivas ao mesmo tempo. Existe um limite?
Eu acredito que o limite vai até onde a criança está feliz praticando esporte, desde que seja de forma lúdica e estando de acordo com a faixa etária. Tive alunos que faziam cinco atividades diferentes. Se é errado depende de cada criança, mas devemos ficar atentos ao cansaço físico e mental dessa criança. Se ela está fazendo de forma lúdica, em tese não há restrições. Outro cuidado que se deve ter é de sempre reservar um tempo livre para brincar, para “fazer nada". A criança precisa ter esse momento.
Como o esporte pode ajudar na sociabilização das crianças?
Pode ajudar e muito principalmente quando a criança demonstra essa dificuldade. O mundo lá fora necessita que nos relacionemos, precisamos um do outro, não somos autosuficientes. Quando brincamos, fazemos esse link com a criança, oferecemos artifícios nas atividades para que ela precise se relacionar com o outro de forma bem agradável, de forma que ela não se sinta pressionada. Às vezes fico chateada quando os pais desistem de trazê-los por eles resistirem no inicio, porque sabemos o quanto será benéfico no decorrer do seu desenvolvimento.
Que tipo de lições o esporte pode ensinar às crianças que elas tendem a levar para o resto da vida adulta?
Uma das coisas que colocamos no topo é o respeito com o próximo dentro das atividades e jogos. Isso é primordial e certamente ela levará para o resto da vida. Tentamos fazer com que o esporte seja algo prazeroso em sua vida, mesmo que este individuo não vire um atleta. Trabalhar em equipe é outro ponto, porque a criança irá precisar do outro indivíduo para que seu time seja melhor e vai aprender que ela não é autosuficiente.
É comum que os pais busquem nos filhos compensação por vitórias e títulos esportivos não conquistados no passado?
É mais comum do que se imagina, mas como já disse, só será de grande valia até o momento que está sendo prazeroso para a criança. Se ocorrer o inverso, estará se criando uma criança frustrada e que não irá querer praticar esporte algum.
E como deve se dar a escolha da modalidade esportiva de acordo com a idade?
Antes de escolher qualquer modalidade, deve-se dar um rico repertório motor, para que esta criança quando partir rumo a algum esporte tenha condições suficientes e facilidade ao praticar qualquer atividade. Não sou a favor de colocar ninguém no competitivo antes dos 9 anos, pois muitas vezes acontece a desistência por imaturidade. Volto a dizer: o esporte só está sendo benéfico se a criança está feliz. E, no decorrer dos anos, nós profissionais acabamos identificando o que esta criança tem facilidade.