Por Anne Rammi
Um descolado bi.strô no fim da tarde. Um casal aproveita os últimos raios de sol em uma mesa para dois com toalhas de linho. Delicadas velas fazem o arranjo da mesa. O casal em clima de romance aproveita o ambiente para murmurar confidências somente inteligív/;eis aos enamorados. Eis que subitamente um grito seco corta o ar:
- CUIDAAADO FILHO! Não puxa a bolsa da moça!
Gargalhadinhas e correrias interrompem o namorico, enquanto uma mãe / pai / babá ensandecidos percorrem os estreitos corredores entre as mesas tentando deter o rompante de energia explosiva de uma criança cheia de vida e com pouca, ou nenhuma, vontade de ficar sentadinha até o fim da janta.
Quem nunca passou por um constrangimento com os filhos? Quem nunca sentiu olhares de reprovação em espaço público? Por mais especiais que nossos filhos sejam, uma coisa é senso comum: especialidade de criança é mesmo fazer bagunça. Criança corre, criança fala alto, criança tenta mexer em tudo. Está no pacote.
Na vida pós filhos todos os adultos dotados de certo nível de "simancol" estabelecem uma criteriosa habilidade de compreender os espaços que frequentam além das barreiras do lazer: Será que é um lugar adequado para meus filhos? Posso levar minhas crianças?
Para bares e restaurantes, existem algumas dicas que podem ser valiosas na hora de descobrir se um estabelecimento está apto, e mais do que isso, com vontade, de receber você e a pequena trupe. Observe se o lugar possui cadeirões, e se eles estão em quantidade suficiente. Tenha por regra que um restaurante que possui somente um cadeirão está dando o claro sinal: Ok, vamos te atender dessa vez, temos até um cadeirão para você não ir embora, mas se voltar, por favor não traga seu filho. O mesmo funciona para os fraldários. Não prever um fraldário em um estabelecimento é o mesmo que colocar na porta em neon piscante: Nem vem que não tem, aqui não queremos crianças!
E não por acaso, alguns hotéis, cinemas, cias aéreas, restaurantes e até supermercados preferem nem arriscar. Não esperam que os pais interpretem seus sinais e estabelecem regras mais do que explícitas! Exibem placas nas portas com uma curiosa imagem de carrinhos de bebês, ou criancinhas de mãos dadas, cortados pelo clássico símbolo do proibido em vermelho fogo, daqueles que cortam também as imagens de celulares e cigarros. Existe ainda quem estabeleça horários para frequentadores sem crianças, para que estes possam por exemplo desfrutar da experiência de empurrar seus carrinhos de supermercado por corredores livres de pimpolhos curiosos.
Os aviões são a última trincheira no embate entre esses dois tipos de pessoas: os que estão com crianças e os que querem ficar o mais longe possível delas, de modo que algumas companhias aéreas chegaram até a proibir pequenos passageiros nas suas primeiras classes, liberadas ironicamente para caninos de pequeno porte. Compreensível de fato. Ninguém tem o menor pudor com o uso de focinheiras, coleiras, anestésicos ou caixinhas de transporte para cães. Para crianças por um outro lado, essa seria uma prática duvidosa. Ou no mínimo polêmica.
Há um tempo, em uma pesquisa feita por um site de viagens norte americano, 60% dos entrevistados responderam que gostariam que houvesse uma área dentro do avião destinada exclusivamente às famílias. Quase 100% dos que optaram por essa resposta não tinham filhos pequenos e declararam querer sentar o mais longe possível de crianças quando adentram um avião. Exitem rumores de que algumas mães quando perguntadas sobre assentos de avião também responderam que gostariam de sentar o mais longe possível dos próprios filhos. Mas nenhuma pesquisa conseguiu ainda comprovar essa teoria.
Fica fácil evitar locais em que as crianças são proibidas quando esses sinais, sutis ou explícitos, estão claros para os pais. Mas e quando os reguladores da freqüência infantil são somente os olhares tortos dos passageiros da classe econômica ou passantes de um museu, cujas obras você tenta apreciar enquanto carrega a mala de fraldas, empurra um carrinho vazio com uma mão, segura o mais novo com a outra e tenta impedir que o mais velho derrube a estátua grega de 2000a.C.?
Uma família hoje pode buscar opções de lazer e entretenimento fora do lugar comum das pracinhas, parquinhos e restaurantes fortemente armados com menu kids e sala de recreação com monitores. Não é democrático segregar um grupo de uma exposição de artes por exemplo, só por que nesse grupo existem seres humanos que ainda são pequenos.
Talvez o bistrô da toalha de linho possa ser amistosamente frequentado pelos dois grupos, os que colocam crianças no mundo e os que evitam. Contanto que o primeiro grupo saiba que possivelmente a hora do almoço é a hora mais adequada e que o segundo possa se programar para sair de casa mais tarde. Muito provavelmente os dois grupos conseguirão arrumar um jeito de conviver sem decepções no horário do por do sol, contanto que todos tenham claro que para qualquer convivência harmoniosa e para total exercício da democracia é preciso que a máxima "o seu direito termina quando o do outro começa" seja respeitada.
ma mãe mostra com carinho para os filhos os limites do convívio social. Explica que existem alguns lugares onde não podemos gritar ou correr. Tenta aos poucos ir traduzindo o mundo civilizado aos filhos. Enquanto um visitante sem filhos releva qualquer displicência da criança, lembrando que também não é justo que pais e mães de pequenos fiquem segregados de algumas atividades por anos à fio de suas vidas. E ainda que para o aprendizado é fundamental a vivência.
Uma criança não pode aprender a se comportar em um museu frequentando somente salas de recreação. Aos estabelecimentos e espaços públicos fica o convite para que estejam minimamente preparados para receber todos os tipos de frequentadores, inclusive aqueles que ainda não respondem por si. Aos pais e filhos fica a missão de ensinar e aprender. E aos demais visitantes, a missão de recordar. Um dia, todo mundo foi criança.
Esse texto está publicado, em sua versão reduzida, na coluna que o Mamatraca assina na revista Kids In desde o início do ano.