Solidão

"PRECISAMOS ORGANIZAR UMA TRIBO QUE NOS APOIE E OFEREÇA COMPANHIA E COMPREENSÃO"

 

É com muito orgulho que o Mamatraca apresenta a entrevistada de hoje: Laura Gutman. Psicoterapeuta familiar, nasceu em Buenos Aires e viveu em Paris, onde se graduou em psicopedagogia clínica, foi discípula de Françoise Dolto.  Sua experiência resultou em uma linha de pensamento única sobre a realidade emocional das mulheres que se tornam mães e o universo dos bebês. Este ano teve seu primeiro livro, La Maternidad y el encuentro con la propia sombra, traduzido para o português. Imperdível. 
 

 

Em seu livro “A maternidade e o encontro com a própria sombra” você coloca que o nascimento de um filho é o evento mais avassalador da vida de uma mulher. Por quê? Ter um filho não deveria ser algo natural?

É natural, mas também é uma quebra física e emocional. Em parte porque associada à crise devido à presença do bebê, aparece a “sombra”, ou seja, a parte que desconhecemos de nós mesmas, e em parte porque entra em contradição nossa identidade, sobretudo se damos valor a nossa independência, nossa autonomia e a disponibilidade de tempo como um bem próprio.

 

Praticamente todas as mulheres relatam que não tinham noção do que é ter um filho antes de serem mães. O que poderia ser feito para que as mulheres chegassem à maternidade mais preparadas e com mais segurança?

Penso que o mais importante é chegar madura emocionalmente. E a maturidade é fruto da indagação pessoal, da busca de ser verdadeira. Chega-se a essa maturidade investigando aquilo que nos aconteceu na infância – que não lembramos ou do que fugimos para não sofrer. Frente a qualquer crise, a melhor opção é se conhecer mais.

 

Você diz que ser maternal implica entrega e paciência. Mas, além desses atributos, as mulheres contemporâneas são ainda cobradas para serem boas profissionais, boas donas de casa, boas esposas, inteligentes... Como uma mulher da sociedade de hoje pode enfrentar tantos desafios e articular esses papéis sem ter que abdicar de uma coisa em prol de outra?

É um problema de identidade. Sendo trabalhadoras, temos reconhecimento social. Permanecendo em casa, não. E a capacidade de contato físico e emocional, a entrega, a presença e a disponibilidade que podemos oferecer ao bebê depende de nossas próprias experiências pessoais, quer dizer, daquilo que aconteceu na nossa infância. Se temos histórias de desamparo, de solidão, de medo, de abuso ou mentiras, é pouco provável que tenhamos recursos emocionais para dar prioridade às necessidades da criança. Então o trabalho ou as atividades sociais são nosso melhor refúgio.

 

A maternidade traz consigo alguns sentimentos negativos, como a solidão. Por que isso ocorre?

Na verdade, nenhuma mãe deveria estar sozinha com um filho pequeno nos braços. A espécie humana foi desenhada para andar em manadas, em tribos. Nós, mães modernas, precisamos organizar uma tribo que nos apóie e ofereça companhia e compreensão.

 

Há estratégias para lidar com essa solidão?

Claro, as mulheres não devem permanecer sozinhas. As redes de mulheres são – ao meu critério – a melhor opção.

 

O livro aponta para a importância das recém-mães conviverem em grupos de mulheres, mas sabemos que muitas vezes isso não é possível. Muitas mulheres vivem distante de suas famílias e amigas íntimas, mas encontram na internet, e em especial na blogosfera, um espaço rico de troca e auxílio mútuo entre mães. Qual sua opinião sobre redes virtuais para interações entre mães?

Me parece fantástico! Muitas mulheres encontram nas redes sociais um local de identidade, apoio e de escuta, principalmente quando vivem isoladas. Se existem, devem ser utilizadas.

 

Tags: maternidade, entrevista, SOLIDÃO
Postado na sessão Blog por Caroline
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