Consciência

O pintinho souvenir, estupro no zoológico e o prato nosso de cada dia

Na semana passada apareceu no meu feed de Facebook uma imagem de uma pilha de lembrancinhas de festa temática. Caixinhas de madeira com o nome do aniversariante. Dentro de cada caixa: um pintinho vivo. A crueldade aparente é apenas aquela de coisificar o animal e o óbvio - que sabemos - fato de que ele vai morrer. E fica um certo ranso pelo consumismo desenfreado e a ânsia por ideias geniais e exclusivas. As festas infantis realmente podem ser a última fronteira do impossível bizarro.

Mas a verdade atrás da carinha do pintinho é que exploramos animais, e os coisificamos (à despeito de todo valor que supostamente daríamos à vida) a todo momento.

A indústria de ovos precisa de galinhas poedeiras. Para fazer ovos. Elas são confinadas e passam 24h recebendo luz direta (para acreditarem que é dia) e ração hormonada. Os ovos vão parte para a nossa mesa, parte para as chocadeiras artificiais. Os pintinhos nascidos são separados em fêmeas, que vão pôr mais ovos e machos, que vão virar bife de frango? Não. Eles são mesmo triturados vivos e viram ração para as irmãs que sobreviveram. Ou por algum acaso acabam na sua TL de Facebook posando para a foto da lembrancinha da festa do guri. Uma leitora do mamatraca conseguiu ver vantagem para o pinto souvenir. Melhor que ser triturado vivo.

 

Na época da páscoa, um blog grandão de maternidade compartilhou a prática de uma mãe que alugava anualmente um coelhinho para entreter os filhos e celebrar a efeméride. O post rendeu um monte de reflexões importantes, (e julgamnetos e brigas como é de praxe na grande rede mundial de computadores) e acabou sendo apagado. Mas a ideia de alugar ou comprar coelhos na páscoa não é novidade, e já foi divulgada sem grandes pudores até por atrizes globais. A Páscoa é uma data bem trágica para alguns coelhos, e cachorros. Uns tem que trabalhar de graça, ou são adotados e descartados dias depois e outros ficam intoxicados com chocolate. Mas sem dúvida, quem sofre mesmo são os peixes, o Bacalhau das classes mais abastadas e a Sardinha para quem está com o orçamento curto. Para eles, não tem nem a chance de ser abandonado na pracinha depois que o furor da data comemorativa passar.

Em um grupo de facebook uma colega estava chateada porque a professora da filha adolescente falou na escola sobre abatimento animal. O que influenciou a menina a não querer comer o bife do almoço. O prato nosso de cada dia e o culto à carne na alimentação é tão cruel quanto o pinto souvenir. Eu queria ter sabido na escola, fonte do saber, porta de entrada do mundo, polo máximo da construção da cidadania, um pouco mais sobre a cadeia produtiva da carne. Como não soube, fui aprender sozinha.

Peixinho é uma delícia, e cheio de ômega 3 (assim como leite materno). Mas a pesca predatória tem desequilibrado o ecossistema oceanico do mundo. Estima-se que 70% das espécies de peixes estejam já ameaçadas de extinção, pois são explorados de forma insustentável. Os pesqueiros retiram da natureza escala muito maior do que as espécies que escapam conseguem reproduzir. A matemática é simples. Além do impacto ambiental, não custa lembrar que peixes são animais sencientes. O que significa que sentem. Sentem medo, dor e lutam pela vida. No último fevereiro a França alterou o código civil em manobra histórica, reconhecendo os animais como sencientes. O que os tira como objetos de direito dos humanos. No entanto, a França ainda é o maior produtor mundial de FoiGras, feito do fígado do pato morto.

Não se engane achando que a solução seria então o peixe de fazenda. Aliás, sabe aquele salmãozinho do sushi? Fazenda. Que produz um alimento da pior qualidade, sem nenhum valor nutritivo para os humanos, de acordo com a família Feldman. 

A cada hora, apenas nos Estados Unidos, meio milhão de animais são mortos em abatedouros para fins de alimentação humana. Entre mamíferos, aves e peixes, os crustáceos e moluscos não estão nessa conta. Um brasileiro come na média, 40 quilos de carne por ano. Existem muitas formas de abate animal. No comercial da Friboi a gente só vê o pessoal bonito embalando os pedaços já picados, então fica difícil fazer a ligação do lé com o cré. Mas aquilo veio de um ser vivo - que por certo não teve uma vida lá essas coisas, comeu carne animal mesmo sendo herbívoro e tomou remédio pra caramba - naturalmente, morto.

Os bovinos são abatidos normalmente com uma paulada na cabeça (para atordoamento) seguido de desmaio e corte da jugular para esvaziamento do sangue. Depois é picado. Os suínos não recebem a paulada atordoante, no geral tem o coração perfurado e sangram vivos pendurados pelas patas de trás. Os frangos logo que nascem são debicados, ou seja, lhe arrancam os bicos, para que (por stress) não se firam com bicadas nas granjas. Na hora do abatimento, que é em larga escala diferente dos mamíferos, são eletrocutados com baixa descarga, para não endurecer a carne. Permanecem vivos e conscientes, quando são degolados um à um para escoamento do sangue. Sorte se morrerem nessa hora, porque muitos chegam vivos à última etapa que é o escaldamento em água quente. E os peixes, como morrem? Oras. Afogados, de ar. Cortam as guelras e esperam agonizar até morrer. Esse artigo conta (e mostra) mais.

Foto SerVeg

 

No primeiro semestre de 2014 a BRFS3 (mais conhecida por Sadia e Perdigão) teve queda brusca de lucros e precisou se reorganizar com cortes profundos e reestruturações. Para o meu amigo que é dono de agência de publicidade isso significou: acabou a cesta de natal que vinha com pássaros mortos congelados. Para o consumidor comum, reles mortal isso se traduziu em "ceia da árvore". Uma tentativa do mercado de aves de criar mais uma tradição supostamente arraigada a valores cristãos (como natal, família e comunhão) à partir da exploração animal. Mas o objetivo era mesmo melhorar as vendas.

Quero dizer apenas que um chester é apenas um frango muito gordo e geneticamente modificado que nunca teve a chance de andar na curta vida, de 60 dias. Um Peru é um animal de origem norte-americana e a tradição de comê-lo no Natal aqui no Brasil é da mesma seara (hohoho) que a "ceia da árvore"- inventada por motivos comerciais e também que para todas as comemorações que se centram em torno da comida, há opções sem crueldade animal. Basta querer.

 

Em março, uma deputada do Rio Grande do Sul apresentou projeto de lei que proíbe o sacrifício de animais em rituais religiosos

De fato, quando um animal é assassinado para finalidades religiosas, há muita condenação, muito julgamento sobre o tema. Em especial, se não for "a minha" religião né? Uma notícia de 2012 em um grande jornal do Facebook (não consegui encontrar o link) contava da tradição Indonésia de massacrar as vacas para que levem as almas dos entes falecidos para o além. 99% julgavam a tradição covarde, e alguns inclusive prometiam para as almas estadia eterna no inferno. Afinal, assassinavem inocentes. Meia dúzia de veganos corajosos ousaram a perguntar: e o que vai ter de almoço na sua casa? 

O projeto da tal deputada trata das religiões de matiz africana e não aborda, no entanto, o sacrifício de animais para rituais cristãos, como o Bacalhau da Páscoa, o Peru do Natal ou o Tender do Ano Novo. Isso tem o nome de piedade seletiva. Assim como é muito triste ver a galinha preta que vai morrer no despacho de amanhã dentro da gaiolinha do petshop desglamourizado também pode ser bastante questionável que se compre um passarinho silvrestre para viver escravo numa gaiola, ou um hamster ou um porquinho da índia para agradar os aluninhos. Seletivamente escolhemos a diferença porque a (minha) cultura permite. Lá na Indonésia tá tudo bem machadar as vacas para finalidades religiosas como aqui está tudo bem fazê-lo para comer.

A questão é: estamos evoluindo individualmente e como coletivo para uma atenção global ao tema? 

As touradas na espanha são espetáculos de massacre e tortura animal, bem como os rodeios largamente respeitados no Brasil, só que tem purpurina em cima e a proteção da cultura. Que tem música, tem ídolos, tem todo um aparato em volta, mas que se resume única e exclusivamente à raiz do ser boiadeiro: que é de exploração animal. Sim, eu posso não matar, não comer, não maltratar animais e ainda assim gostar de ouvir Almir Sater. Me deixa.

Fonte: Beco Country 

No começo do ano uma amiga comprou um cachorrinho de raça pelo valor de R$2.399,00 por estar convencida, além do apreço estético que tinha pelo cachorro, que se tratava de uma raça boa para crianças. Eu "tenho" um gato. Faz 17 anos que essa alma penada companheira está comigo e te digo com todas as letras: é o primeiro e último animal de estimação que eu "terei". 

O consumo em torno do animal é algo que eu não entendo mais, e depois de ter sucumbido, com 18 anos à cultura do "ter um pet" posso concluir que há algo de muito podre nesse hábito estranho de pegar um bicho para chamar de seu. As coisas vem escalando como pretende o capitalismo. Há 30 anos os cachorros da casa da minha avó comiam o resto da janta. Reciclado, sustentável e barato. Hoje há mais de 200 tipos de ração para cachorro, que claro, contém os restos dos animais processados lá em cima.

Esse ilustrador faz provocações constantes à nossa cultura de descaso para vários temas: veja mais

Perto do meu bairro há creches para animais. Seres humanos que almoçam e jantam os porquinhos, compram cachorros caros e os colocam na escola "porque passariam o dia sozinhos". Se o consumismo não explica o ato de pegar um animal para depois colocar na creche ou mandar a empregada passear, eu não sei o que explica.

Eu acho fabuloso que se enxerguem os porcos como os animais dóceis que são, e de fato a lucidez em torno da tragédia que é assassinar porcos em larga escala para fins alimentícios tem aumentado um pouquinho. De modo que estamos boicotando presunto? NÃO! De modo que o pet-fever-consumismo transformou porcos em pets e agora eles são vendidos como cachorros e tratados como filhos. Mas claro, só os bonitinhos, com cara de Babe, o porquinho atrapalhado. Os gordões e malhados podem ir para a feijoada. 

É quase como se topássemos pagar a matrícula da escola com direito à roupas e fisioterapia (quem sabe até terapia!) para a Dama e de janta, cozinhássemos o Vagabundo (esse trecho contém uma alusão Disney para efeitos de ilustração).

 

Em 2012 a indústria de produtos para pets - que inclui desde o banho e tosa até opções em joalheria e culinária gourmet para animais de estimação, no geral cães e gatos - faturou quase 13 bilhões de reais. O Brasil tem mais de 40mil lojas do segmento "pet" e perde apenas para os Estados Unidos no mundo, e a família brasileira gasta em média R$500,00 ao ano com seu pet, se ele for um gato e R$800,00 ao ano, se for um cão.

Mas o Brasil tem 30 milhões de animais abandonados, entre gatos e cachorros e os abrigos são super-lotados e sofrem com falta de recursos e condições. Confesso que sempre me pergunto se a pessoa que dedica a vida a salvar os animais abandonados também tem o mesmo carinho por animais em cativeiro para fins alimentícios ou para fins de entretenimento. 

Um filhote de cachorro precisaria ficar com a mãe por pelo menos 70 dias, até o desmame. Mas para alimentar a demanda da indústria de venda de animais, os procriadores tendem a encurtar esse prazo para 20 dias ou menos. Os animais "matrizes" permanecem a vida inteira cruzando e fazendo ninhadas para ter mais filhotes. As fêmeas passam por uma sequência ininterrupta de gestações e cruzamentos forçados (vulgo estupro) em stands para cruzamento. Os animais velhos ou fora do padrão do mercado são sacrificados ou abandonados, para fazer coro aos 30 milhões que não valem dinheiro. 

A inseminação forçada de animais é prática comum também em zoológicos, mas nesse caso tanto o macho quanto a fêmea são abusados pelos tratadores. Como vocês imaginam que els obtém o sêmem dos machos? Masturbação. Como inseminam as fêmeas? Penetração. Consentido? Não. Mas as bilheterias aumentam com a presença de filhotes. Em 2002 a elefanta Chai do Zoo de Seatle foi inseminada 112 vezes até engravidar. O bebê morreu anos depois. A inseminação é feita com o animal amarrado e drogado.

No ano passado o zoológico de São Paulo recebeu quase dois milhões de visitantes para apreciarem a vida em cativeiro de mais de 3.200 seres vivos selvagens. Os zoológicos ao redor do mundo (e demais parques de vida animal) se posicionam estratégicamente como centros de proteção e educação. Enquanto entidades sem fins lucrativos defendem que são apenas corporações explorando a vida animal para fins de lucro máximo, que não tem absolutamente nada a lucrar estando presa atrás das grades.

Foto de Bru Fraga

Você já viu aqui uma pesquisa grande sobre a crueldade dos parques temáticos de vida marinha, e como é um contrasenso da família com interesse em desenvolvimento da cidadania e ética, levar os filhos em um ambiente desses. Naquela época eu não tinha nem coragem de me posicionar sobre zoológicos (como diz uma amiga minha, nossa sociedade está disposta a encarcerar crianças, imagina se estão preocupados com os animais?). Imagina? Passar a vida sem levar o filho no zoológico? Olha. Um zoológico não faz nada diferente com suas girafas do que um Sea World da vida faz com suas baleias. Vide a história da Chai.

Na semana retrasada uma leoazinha recém nascida em cativeiro estava em um programa de auditório tomando mamadeira de leite de cabra batido com carne moída. "Nós importamos os pais em 2006 da África do Sul." A mãe rejeitou a leoazinha, a primeira leoa branca nascida em cativeiro, e ela apareceu na televisão, mordendo os fios da câmera, enquanto tentavam lhe enfiar pateticamente uma mamadeira na boca.

"Ela toma uma mamadeira de leite de cabra batida com carne moída e enriquecida com sais minerais", explica um especialista. Eu penso que qualquer semelhança com a vida humana, é mera coincidência. "Então esse é um caso onde a ajuda humana salvou a vida desse animalzinho né?" regojiza a apresentadora que recebe em seu studio um animal selvagem recém nascido, como se fosse normal.

Há alguns anos eu venho acompanhando o movimento em prol dos direitos reprodutivos das mulheres, com destaque para parto e amamentação. Não há uma só ativista ou profissional do novo modelo (humanista, em desenvolvimento) que discorde que as interferências desnecessárias praticadas em uma mulher em momento de trabalho de parto ou parto podem acarretar distocia nesse processo ou no de amamentação. Em outras palavras, uma mulher acuada, amarrada, pinicada, filmada, acompanhada, mal assistida pode ter mais dificuldade para parir e/ou amamentar. 

Como será que se sentem as fêmeas de outras espécies parindo em cativeiro? "Preservação da espécie". Pois se os leões são espécies em extinção o que estamos fazendo propondo procriações em cativeiro que fatalmente geram a recusa da mãe de criar a prole? Aliás, vocês sabem o que os zoológicos fazem com os leões - e diversos outros animais - velhos ou doentes que não dão bilheteria? Vendem para circos, zoológicos menores, vendem para caçadores que tem prazer em caça-los em suas reservas ou colecionadores taxodermistas (empalhadores). 

Na mesma semana, o aquário de São Paulo recebia um casal de ursos polares diretamente da Rússia para aumentar as bilheterias do parque de clima tropical. Dá-lhe ar condicionado. O Águário se orgulha de ter trazido também cangurus recém nascidos. Cada vez que compramos um ingresso para um desses lugares somos cúmplices, como a decoradora da festa do pintinho souvenir, de crueldade contra animais.

Ok. Nem cheguei nos cosméticos. Prometo que volto para contar um pouco sobre os produtos (em especial aqueles que são "perfeitos para seu bebê, cheios de carinho, amor e tudo mais") que judiam dos animais.

Por hoje, sem mais.

 

Tags: alimentação, animais, ética, vegetarianismo
Postado na sessão Blog por Anne
Logar com:


Cadastre-se Recuperar Senha