Memórias de Mãe

A QUEM PERTENCEM AS MEMÓRIAS DE NOSSOS FILHOS?

Facebook. Instagram. Twitter. YouTube. Flickr. Blogs. Pinterest.

Eu não sei como a gente dá conta de tantas redes sociais. É tudo tão novo que obviamente não há precedentes para a relação que mantemos com a tecnologia. Mas sabemos que, de uma maneira ou de outra, tudo isso veio pra ficar. Então, nos resta tentar entender e tirar o melhor proveito delas, já que nós, brasileiros, temos uma tendência ainda maior em aderir a essas ferramentas (numa pesquisa divulgada no final de julho, e realizada pela empresa SurveyMonkey, o Brasil ficou em terceiro lugar no ranking das nações que mais compartilham posts em redes sociais, entre 16 países analisados!).

Porque a gente posta em redes sociais? Para compartilhar informações, para manter contatos, para estreitar laços, para se divertir, para criar uma rede de apoio, para se exibir. Talvez um pouco de tudo isso e muito mais, é bem verdade. Mas, ultimamente, venho me perguntando, será que a gente não deveria ser mais criterioso ao postar fotos, vídeos e informações sobre os nossos filhos nessas redes? Se tudo é tão novo, quais serão as consequências de termos uma vida documentada na internet desde o nascimento, como acontece atualmente?

 

 

Pense bem: há maternidades que transmitem partos e publicam fotos em tempo real. Anunciamos o nascimento em nossas redes e blogs. Mantemos regularmente informações sobre o crescimento e o desenvolvimento deles. Compartilhamos nossos erros e acertos na educação das crias. Não há mais separação entre vida real e vida digital. Mas esquecemos que redes sociais são empresas que acabam detendo muita informação sobre as nossas vidas. E continuo me perguntando: se nossas mães tivessem publicado informações sobre a gente na internet ao longo de toda a nossa infância, disponíveis para sabe deus quem, nós teríamos gostado? A nossa história não deve ser narrada, editada e compartilhada publicamente sob nossa própria responsabilidade, quando temos maturidade pra lidar com as consequências?

Seguindo a linha lógica, passei a questionar também: qual a nossa motivação em publicar informações, (principalmente fotos) dos nossos filhos? A quem interessa tornar público e acessíveis fotos e vídeos sobre eles? Isso vai ficar disponível pra sempre na internet? Quando aceitamos (no meu caso, quase sempre sem ler, assumo aqui publicamente com muito constrangimento!) os “termos e condições” de todas as redes sociais das quais fazemos parte, estamos vendendo nossas almas (e consequentemente a dos nossos filhos) pra eles, para todo o sempre? Qual a responsabilidade dos pais no “gerenciamento” da imagem dos filhos na internet, principalmente por não sabermos muito bem quais as consequências em longo prazo? Muitas perguntas...

 

 

Eu adoraria ter mais dados sobre a minha própria infância. Trabalho com a possibilidade de eternizar a memória dos momentos bons da vida e acho mesmo que a gente nunca deve se esquecer do que vivemos. Mas é realmente necessário tornar isso público? Sem limite? Pensando em tantas questões, sigo em busca de fontes que se aprofundam nesses temas. E encontrei o incrível livro Conecte-se ao que Importa – Um Manual para a Vida Digital Saudável, do jornalista Pedro Burgos. Mais do que um guia, ele faz um tratado filosófico sobre nosso comportamento na internet.

E eu poderia citar inúmeras passagens do livro, mas uma delas dá uma dica de como manter uma vida saudável nas redes sociais: “é importante tratá-la efetivamente como uma extensão da vida social que temos no mundo físico, tendo em mente a diferença fundamental: o seu newsfeed do facebook não é exatamente uma reunião com amigos e conhecidos, mas o encontro em uma sala tumultuada, cheia de megafones, onde seus melhores amigos andam ao lado de pessoas que não te conhecem bem, primos chatos e um colega de trabalho que você não sabe por que convidou”. Com o adendo de que o que você disse há dez anos ou há dez dias, continua reverberando, diferente do que acontece se você gritar na rua agora.

Pois é...sob o pretexto de compartilhar informações sobre nossos filhos com quem a gente gosta, será que não estamos alcançando uma audiência que não nos interessa? Também não estamos tirando deles o controle sobre a própria história e o direito de privacidade? Estamos alterando para o bem ou para o mal a maneira com que eles vão lembrar-se da própria vida?

Será paranóia? Será cuidado em excesso? Bem, como não tenho respostas prontas, termino com mais uma pergunta, pois acredito que o debate é fundamental: o que vocês acham sobre o assunto? Vocês pensam sobre isso antes de postar?  

 

fotos: Freeimages

Tags: filhos, internet, fotografia
Postado na sessão Blog por Anne
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